A notícia mais importante não abriu telejornais

A notícia não abriu telejornais, mas mudará, a prazo, mais um pouco as nossas vidas. Após dez anos de conversas, adiamentos, debates e sondagens, o Parlamento Europeu aprovou o euro digital com uma maioria expressiva. Há ainda passos a dar, nomeadamente no Conselho e na Comissão Europeia, mas em 2029 todos os cidadãos da UE poderão fazer os seus pagamentos através de uma plataforma europeia.

É uma revolução em curso. Uma reação a um mundo em mudança e a uma América que, com Trump, insiste em afastar-se dos seus aliados históricos criando à Europa um grave problema de soberania. Christine Lagarde, presidente do BCE, provavelmente futura candidata ao Eliseu, assumiu a primeira linha de defesa do euro digital.

Para se ter uma ideia, em 2022 e 23, cerca de 60% dos pagamentos na Europa foram feitos a partir de cartões internacionais (sobretudo Visa e MasterCard). Se cada transação equivale a um custo de três cêntimos, é fácil chegar a números astronómicos que financiam o desenvolvimento de sistemas americanos cuja lógica nos transcende.

Na votação no PE, sem surpresa, foram os partidos de extrema-direita que se insurgiram e votaram contra; em Portugal o Chega foi acompanhado pelo PCP e, para minha surpresa, pela IL. Os argumentos são os da centralização de dados e o risco de vigilância sobre o que fazemos a partir da análise dos nossos hábitos. A IL acrescentou o risco da distorção do mercado.

Certamente que poderemos pensar juntos acerca de algumas destas reticências, mas parece-me, sinceramente, que o mundo já não é o mesmo, que o risco que temem já existe, que o controlo através dos hábitos já é uma realidade, o pequeno detalhe é que nas guerras de futuro, nos combates pela predominância, só poderemos ter paz e manter o nosso modo de vida e a nossa civilização, se formos independentes e donos do nosso próprio destino. Sem soberania morreremos a prazo.

Há umas semanas foi notícia o tenebroso caso de Nicolas Guillou, juiz do Tribunal Penal Internacional, que deixou de poder usar os seus cartões porque os americanos se solidarizaram com o primeiro-ministro israelita por este ter sido condenado pelo TPI. Soaram aí todos os alarmes: numa situação de emergência, de conflito, o que aconteceu a um poderá acontecer a todos, nenhum de nós está livre de não poder sequer dispor do seu próprio dinheiro se tal for do interesse de quem deseja ferir a Europa.

O primeiro passo foi dado, mas parece ser firme. Em 2029 seremos, desse ponto de vista, autónomos. Um movimento que é mais uma prova de que, por uma vez, a Europa caminha para um plano de autonomia estratégica. Na produção de armas que nos defendam, na criação de alternativas aos mísseis americanos, na travagem a parcerias com empresas americanas em setores críticos da segurança europeia, na aposta em redes europeias de IA, no cancelamento de companhias não-europeias de vigilância (como a Palantir), no investimento no mercado de semicondutores e na não dependência de Wall Street.

Na próxima semana continuarei o tema. Sendo um otimista, e um cidadão europeu empenhado, escreverei sobre os perigos e os desafios destes passos. Há quem tema que o setor cooperativo e a banca comercial, sofrerão a prazo. Não é essa a minha perspetiva. Direi também sobre os portugueses que foram escolhidos pelo BCE para liderar o mecanismo de proteção contra fraudes do euro digital. O unicórnio português Feedzai, de Nuno Sebastião, estará na vanguarda desta revolução. Há sempre portugueses envolvidos nas mais altas subidas à mais alta montanha. Devemos ter orgulho do que somos.

Manuel José Guerreiro
Presidente da Caixa de Crédito Agrícola Mútuo de Torres Vedras

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