António de Oliveira Salazar

Há precisamente 100 anos, o general Gomes da Costa deu início a uma ditadura militar que abriu caminho ao Estado Novo. Sem esse golpe militar de 28 de Maio o país não teria conhecido Salazar, o mais amado e detestado dos líderes portugueses.

Proponho que possamos hoje pensar alto sobre um homem que continua a dividir as águas e a ser recordado por boas e más razões – em alguns casos, a ser lembrado por quem não faz a mais pequena ideia de quem foi e do que corporizava.

Salazar foi um homem marcante. Um homem do seu tempo, mas que, com uma enorme inteligência e uma doentia solidão, marcou a História, tendo as melhores qualidades e os piores defeitos de um país que governou sobretudo após o atentado com mão de ferro e controlo total sem praticamente sair de São Bento.

Em 1932, quando assume a presidência do Conselho, depois de ter exercido o poder quase total nas Finanças, já era um homem, para a época, "velho". Tinha 43 anos e nas fotografias surge grave e providencial. Estabelece regras rígidas, chama os que considerava melhores na sociedade civil, convoca os ricos, põe ordem nas Forças Armadas, dá carta branca a uma polícia política que dê luta aos que aspirem ao seu lugar – fações extremistas do regime – e aos comunistas, anarquistas, socialistas, maçons e libertários. Proíbe partidos, decreta a censura e na Constituição de 1933 institucionaliza a trilogia Deus, Pátria e Família.

Sempre me fascinou a figura.

Há muitos anos visitei-o na sua campa, no Vimieiro, e fui à sua casa em ruínas. Interessavam-me as perguntas não-esclarecidas pelos livros. Quis observá-lo naquele silêncio fora dos manuais. A sepultura foi como a imaginei, rasa ladeado pela família, sem artifícios, um culto de personalidade por oposição, uma frugalidade calculada ao milímetro, mesmo após a morte.

Não sou capaz de o diabolizar. Ou de o endeusar. Salazar não oferecia nada a ninguém, mas também não era sensível à lisonja. Desejava ser amado, mas desejava a solidão. Acreditava na Igreja Católica, mas se ela não o colocasse em causa. Não tenho a certeza se rezava, tenho as maiores dúvidas. Era providencialista de si próprio. O poder nele não se exibia, administrava-se. Conhecia o ser humano, as suas manhas e vaidades. Influenciava com palavras certas, retirava confiança com o silêncio, dividia os poderes, mas só ele conhecia a chave completa.

Como já escrevi algures, Salazar nunca pôs os pés em África, mas conhecia a geografia africana muito bem. O Império era um mapa repetido até se tornar uma oração. Não viu os rios, as montanhas, o pó ou a luz. Não conheceu as pessoas, não as viu. Governava territórios que não cheirou, que não escutou, que não provou. As colónias foram para ele relatórios, estatísticas, telegramas, linhas num atlas, números num orçamento.

Salazar teve depressões, achaques e uma dependência e um desprezo enorme por Maria, governanta que transformou São Bento numa quinta rural fornecedora do Hotel Avis. As suas origens eram humildes, mas controlou os ricos e a iniciativa privada. Geria como um contabilista sem alma, um juiz de província, mas estabilizou as contas depois do descalabro da I República e fez crescer a economia entre 1960 e o início da Guerra Colonial entre 5 e 6% ao ano. Era um estatista, um homem do Fomento, que tratava os portugueses como um pai a quem deviam obediência até à morte.

Esmagou a oposição com crueldade. Instituiu a tortura para quebrar a espinha aos comunistas e aos que aparecessem. Na Constituição garantiu que o Presidente da República o poderia demitir, mas na prática Carmona e Craveiro Lopes foram afastados assim que tentaram escapar ao seu controlo.

Salvou o país da 2ª Guerra Mundial, mas não teve a ousadia de sair quando teria sido prudente fazê-lo. Continuou e foi vítima de um tempo que já não era o seu, tornara-se um anacronismo. Após ele devia seguir-se o caos –, não havia preferidos e, com isso, sabotou o regime que criou. Ele defendeu como poucos a sua ideia identitária de Portugal, muito baseado na soberania de Jean Bodin e no ultramar português uno e indivisível, do Minho a Timor.

Uma nota final para um aspeto interessante. Não creio que Salazar se sentasse à mesa com uma larga maioria dos que agora o apoiam. Era fortemente elitista, os seus mais próximos – com exceção dos homens de mão na PIDE – eram intelectuais, catedráticos. Salazar procurava os quadros de honra da academia. Rodeou-se de gente como António Ferro, Fezas Vital, Marcello Caetano, Duarte Pacheco, Teotónio Pereira, Adriano Moreira, Manuel Cerejeira, Bissaya Barreto e, num certo sentido, Almada Negreiros e Egas Moniz.

Não há comparação possível com os que hoje ruidosamente o apoiam – no seu tempo não entrariam sequer para a sua sala de espera.

manuel.guerreiro@ccamtv.pt

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