Edgar foi um milagre para a humanidade.
Estava nos cuidados paliativos do Hospital Americano de Paris, nunca acreditei na sua morte. Ainda não acredito. Tinha acabado de lançar o livro Lições da História.
Em Abril quando estive no Parlamento Europeu, telefonei à Sabah que me pediu para que guardasse a bela memória física que tinha do marido. Todos falávamos de um milagre, conhecíamos-lhe a têmpera. Noutras vezes tinha enganado a morte.
Edgar tinha todos os direitos, excepto o de se transformar em pura energia, precisávamos dele fisicamente.
Este filósofo de esquerda, fisicamente corajoso, com uma enorme gentileza converteu-me a um pensamento de bem, transformou-se num querido pai espiritual. O único sábio que conheci.
O último dos pensadores universais, como referiu o presidente Macron.
Escolheu a primavera para partir, a mesma estação do ano em que luminosamente o conheci. A 29 de maio encerrou-se uma história que se iniciou a 8 de julho de 1921 em Paris.
Era muito familiar, alguém que na sua enorme seriedade me acolhia no conselho, no olhar, e no aperto físico. Tinha pelo movimento cooperativo, de todos com todos, um verdadeiro afeto.
Gostava muito da Caixa Agrícola de Torres Vedras a quem enviou um vídeo, no ano passado, todo em português, chamava-lhe o crédito agrícola do Manuel.
Era doce e inteligente, sorridente e perscrutador, um encantador de almas. No primeiro encontro, perguntei-lhe como o devia tratar, Respondeu-me: "simplesmente Edgar", e beijou-me imediatamente . Naquele gesto, fez-me seu.
Na Fundação Oriente, organizámos-lhe uma conferência que o comoveu. Antes de entrar no auditório, chamou-me à parte, queria entrar apoiado em mim. Chamei a Isabelle Oliveira, a sua amiga de origem portuguesa, professora na Sorbonne. Ela enfatizou:
- " Mas Manuel ele quer entrar contigo. E entramos os três".
Num passeio de elétrico, sorridente disparou: "Manuel, explica-me lá uma coisa, se ainda tenho um pensamento organizado e vivo e estou apaixonado, porque tenho que morrer". Devolvi-lhe o imenso sorriso.
Na tal conferência, abandonou a cadeira e com firmeza foi falar de pé, retirou o relógio para controlar o tempo - creio que esta conferência de Lisboa foi a sua última grande conferência, durante 34 minutos falou de improviso, da sua obra e da importância do sentido, da cooperação e da fraternidade. Da parte da manhã foi condecorado pelo Presidente Marcelo, estava muito satisfeito.
Esta conferência foi trabalhada pela Escola Henriques Nogueira, de Torres Vedras. Nela percebe-se que tinha uma ideia global - viu-o a olhar o público, e nisto sinto um toque forte no braço, sorriu-me e convocou-me para dentro da sua áurea.
Nunca me apertou a mão, cumprimentou-me sempre com um beijo, sinto o cheiro do seu perfume e visualizo o lenço no seu pescoço.
Gostava muito de Portugal, da Helena Vaz da Silva e do seu marido António, de Alçada Baptista e de Mário Soares, todos desaparecidos. Na presença da Sabah disse-me que amava Portugal, e que no 25 de Abril "fugiu" de França e esteve aqui vários meses, queria beber a alegria do povo. "Agora és o meu amigo português, gostava de deixar a minha obra em Portugal, França e Marrocos."
No fim das nossas conversas repetia-me afetuosamente "és um 'monranista'".
Na época dos Santos Populares fomos comer sardinhas, não se calava com as batatas cozidas. "Isto sabe mesmo a batatas", dizia quase incrédulo. não comia produtos industrializados. Dizia-me que tinha saudades da Lisboa dos anos sessenta.
Telefonei a um amigo e fomos para o Tejo, havia ondulação, mas ele colocou aquele grande pé no barco e disse "vamos… se não estiver bom tempo" regressamos. Fi-lo provar queijo de Serpa e vinho da Madeira.
Foi uma maravilha , conversamos sobre o seu ateísmo, sobre a mulher 40 anos mais nova que o salvou de uma depressão quando a mãe das suas filhas morreu, sobre o corte de relações com Jean-Paul Sartre e tanta outra coisa.
Nesta última viagem, confidenciou-me que estava a despedir-se de Portugal: "sei que não mais regressarei. Não vivo para sempre." Ainda o fiz prometer que devia regressar todos os anos.
Edgar não és imortal, mas para mim serás sempre eterno.
Morreu o último pai da humanidade, alguém que verdadeiramente se preocupou com todos, o último dos pensadores universais, aquele que pedia para o tratarem por Edgar.
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