Lusofonia pode abrir uma nova frente de investimento no agronegócio

Lusofonia pode abrir uma nova frente de investimento no agronegócio

Num setor marcado por ciclos de investimento longos, volatilidade dos preços e riscos climáticos crescentes, Manuela Nina Jorge, Presidente da Caixa Agrícola de Mafra e da Agrimútuo e cofundadora da AGROGES, e António Corrêa Nunes, CEO da ACN Consulting, analisam o que torna um investimento viável, os instrumentos financeiros de que o setor necessita e as oportunidades do agronegócio lusófono. A conversa antecipa alguns dos temas que estarão em debate no Global Agri Forum, que se realiza a 1 de outubro na VdA – Vieira de Almeida, em Lisboa, e coloca a Lusofonia no centro da reflexão sobre o futuro do agronegócio.

MANUELA NINA JORGE

"Um projeto sólido extravasa muito o tema económico"


O que distingue hoje um projeto sólido de outro que terá dificuldade em atrair financiamento?

Neste momento não se pode falar só em projeto económico. O projeto sólido extravasa muito o tema económico. Primeiro deve estar adequado às potencialidades agroclimáticas do território e ser desenvolvido por uma equipa técnica que tenha know-how para o fazer. Depois, tem também de ter aporte de capital próprio e, hoje em dia, é muito relevante a questão da transição climática. O projeto tem de ter mitigantes para o futuro ser resiliente: seguros adequados, que cubram preços e produção, as variedades devem ser as mais adaptadas e a questão técnica a mais funcional e evoluída para o conjunto das condições do projeto.

O posicionamento ao longo da fileira é também muito relevante: se tem contratos, se tem mercado assegurado, onde é colocado o produto e se tem ou deve ter transformação. E há uma questão fundamental: a viabilidade financeira. A rentabilidade económica é muito importante, mas, se a viabilidade financeira não estiver salvaguardada, o projeto não tem capacidade de ser implementado.

Para mim, é também fundamental a equipa de gestão e a experiência já demonstrada.

O agronegócio precisa de novos instrumentos de financiamento?

Concordo perfeitamente. A banca tradicional entrou na agricultura com financiamentos e prazos desadequados. É preciso novos instrumentos com os prazos corretos para a vida útil dos investimentos agrícolas. Quanto à volatilidade dos preços, temos de ter instrumentos como seguros de rendimento, que mitiguem variações na produção e nos preços do mercado. E, quando existe uma quebra de produção por motivos climáticos, deve haver possibilidade de reestruturação da dívida ou de carência de capital, sem haver a marcação do empréstimo perante o Banco de Portugal pois o motivo é externo à empresa.

Também é preciso antecipar a transição climática. As novas plantações têm de prever variedades mais resilientes e tecnologias capazes de mitigar problemas climáticos. Os próprios bancos já bonificam investimentos relacionados com a transição climática e as questões ambientais. É preciso dinamizar esse tipo de investimento e fazer chegar a tecnologia também às empresas de menor dimensão. Isto tem de ser feito com antevisão. E fazê-lo já.

Que papel podem as instituições financeiras ter na aproximação dos mercados lusófonos?

Há muita facilidade em criarmos parcerias e atuarmos em conjunto em projetos que envolvam várias geografias. A questão cambial tem de estar salvaguardada, assim como a forma de participação dos vários países. Era importante prever linhas de parceria para agilizar e facilitar as relações entre as empresas. Já temos contactos e parcerias com instituições financeiras noutras geografias, como por exemplo Angola e Brasil e experiência em projetos em Angola, Moçambique, São Tomé e Brasil.

ANTÓNIO CORRÊA NUNES

Há quatro pilares importantes para que o projeto tenha sustento"


Quais são os principais fatores que determinam a solidez de um investimento no agronegócio?

Há quatro pilares. O primeiro é ter um business plan sólido, de longo prazo e com os riscos de projeto mitigados. O segundo é ter uma boa equipa, que execute o plano de negócios. Muitos projetos altamente desafiantes falham porque não têm uma equipa adequada. O terceiro é a questão financeira: o projeto tem de estar financeiramente sustentado, com uma combinação de capitais próprios e alheios que maximize a rentabilidade, mas minimize também o risco.

Finalmente, o quarto pilar é a estabilidade das instituições. Para uma pessoa que quer investir e colocar o seu capital num projeto, é fundamental saber que as instituições de cada país respondem adequadamente. Problemas burocráticos e respostas que se eternizam levam muitas vezes a que os projetos não avancem. No âmbito da lusofonia, este é um ponto fundamental: projetos existem, equipas com vontade de executar existem e há vontade de mobilizar capital para apoiar os investimentos. Para um investidor, é fundamental que as instituições respondam de forma adequada e permitam executar os projetos de forma estável.

Onde estão as maiores oportunidades no agronegócio lusófono?

Angola tem praticamente 60 milhões de hectares de superfície útil e usa cinco ou seis. Moçambique tem 36 milhões de hectares e usa quatro. Temos uma oportunidade brutal para países que estão numa fase em que a agricultura conta muito e têm dificuldade em alavancar projetos.

A agricultura tem hoje de se adaptar às alterações climáticas. No caso do café, por exemplo, Angola tem um enorme potencial, mas é necessário apostar em variedades mais adaptadas às atuais condições climáticas e aproveitar o conhecimento desenvolvido noutros países, como o Brasil. Terreno existe, água existe, a oportunidade existe e, dentro da lusofonia, há sinergias que ainda não estão a ser plenamente aproveitadas.

Portugal pode ser uma ponte entre a Europa, o Brasil e África?

Portugal tem um conhecimento adquirido em rega, em culturas permanentes, em culturas hortícolas, que pode facilmente ser alavancado com outras geografias, nomeadamente Angola e Moçambique. Estes países ganharam com o know-how português, com tudo o que é a tecnologia, conhecimento e experiência portuguesa. Há uma afinidade de língua e de cultura que permite perfeitamente a fluidez de técnicos e de recursos humanos.

Estaria aqui um triângulo quase perfeito: Portugal como porta de entrada na Europa e como exportador de conhecimento e tecnologia; o Brasil, pela experiência em culturas como o café, as oleaginosas e os cereais; e Angola e Moçambique, pelo enorme potencial para desenvolver e expandir a produção agrícola. Portanto, estaria aqui um triângulo que criaria muito valor.

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