O homem da maratona

Na madrugada de domingo para segunda-feira de 13 de agosto de 1984, tinha 16 anos e às 3h00 da manhã estava mais acordado do que alguma vez estivera. Se me estiver a ler e tiver mais ou menos a minha idade, aposto que a sua espertina era igual à minha.

Há momentos em que os países se juntam para celebrar um destino comum, uma cultura que une e identifica, um modo de viver e de sentir. Somos portugueses e naquele dia, incrivelmente distante, mas tão próximo, as janelas abriram-se e ouvimos em cada partícula de território gente feliz a gritar o nome de um homem, de um português: Carlos Lopes.

Nunca acontecera uma medalha de ouro em Jogos Olímpicos para Portugal. E logo na Maratona, a prova das provas, a corrida que fechava os Jogos de Los Angeles, que fecha as Olimpíadas.

Não há como explicar de outra maneira, acredito que existem momentos mágicos em que nos encontramos com o nosso próprio destino. Carlos Lopes forçou-o, arrombou-o com uma autoconfiança providencial, como se a sua vitória fosse inevitável. Estava numa forma única, mas uns dias antes de viajar para a América, quando treinava na Segunda Circular, um Mercedes atropelou-o e a notícia abriu o Telejornal da RTP e foi capa de todas as notícias do dia seguinte - evaporara-se a nossa única esperança de ganhar o Ouro.

A glória acontece quando a História encontra forma de escolher os seus heróis. E aquele acidente, 12 dias antes da prova, acabou por tornar a conquista um momento único e inigualável. Apesar de ser a mais feroz de todas as corridas individuais, Lopes dificilmente encontraria a chave para entrar no Olimpo se não tivesse tido a cooperação de um homem que não era daqui.

O japonês Kiyoshi Kobayashi, que trocara Gunma-Ken por Portugal no final da década de 1950, foi o grande responsável pela recuperação do grande atleta que hoje aplaudo. Um mestre que trouxe o judo para Portugal, mas também um especialista em Medicina Tradicional do Oriente. O seu pai era samurai e ele um homem dos sete ofícios - passou por Kobayashi, por exemplo, a criação de condições para que a Toyota abrisse em Ovar a primeira fábrica fora do Japão.

A entreajuda, o cooperativismo baseado numa absoluta confiança, foi o milagre antes do milagre. Carlos Lopes dera duas cambalhotas no ar e sofrera hematomas numa anca e num cotovelo e escoriações em todo o corpo. O desastre poderia ter sido fatal para as suas aspirações, mas o mestre japonês assegurou-lhe que não. Se dois anos antes o curara de uma lesão crónica no tendão de Aquiles, aqueles traumatismos eram mais simples de resolver. Lopes acreditou e o japonês tinha mesmo razão.

Mas volto atrás, à grande vitória. O primeiro Ouro Olímpico da nossa história. Um momento de êxtase coletivo em que todos, velhos e novos, de esquerda e direita, crentes e não-crentes, homens e mulheres, analfabetos e catedráticos, se juntaram para sorrir e comemorar a aventura comum de ser português, um destino que nos une apesar das diferenças, uma vitória individual que cria uma fraternidade coletiva, como bem diz o meu amigo Edgar Morin.

Um momento inesquecível também para mim; coloco-o na mesma prateleira da primeira viagem para fora do que conhecia, dos livros que amei, da descoberta da espiritualidade, do fim do curso, da importância do personalismo de Jacques Maritain.

Carlos Lopes vive há muitos anos na freguesia da Silveira, em Torres Vedras.

Nesta sexta-feira tenho uma enorme honra em poder, em nome da Caixa Agrícola que lidero, homenagear este herói português. O pioneiro do Atletismo como modalidade ímpar - inesquecível a sua primeira medalha de prata nos Jogos de Montreal, em 1976, só perdendo para Lasse Viren que, muitos juram, fizera uma transfusão com sangue de cobra.

Carlos Lopes a quem Mário Soares deve uma parte da sua vitória nas presidenciais, o seu apoio tornou-se decisivo, e a quem o país deve a capacidade de ter provado que não há impossíveis quando confiamos verdadeiramente em que somos e de onde viemos.

Obrigado, caro Carlos.

Encontramo-nos na Silveira.

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