O que nos está a destruir a Pátria

Neste tempo de enorme polarização nunca houve uma tal quantidade de pessoas certas da sua razão, sendo, ao mesmo tempo, tão ferozmente ignorantes. Não é um fenómeno apenas português, mas é um vírus altamente contagioso que nos está, lamentavelmente, a destruir a identidade e o sentido mais profundo da nossa Pátria. O futuro está carregado de incertezas, mas também de oportunidades. A esperança é uma palavra forte, mas o medo bloqueia a criatividade e rebenta a confiança pela raiz. Não teremos futuro se continuarmos a levar às costas o receio do outro, do que vem de fora, do que nos quer usurpar o que julgamos ser.

Não há traição maior à identidade portuguesa do que aquilo que, neste momento, está a acontecer no controlo securitário, agressivo e imoral dos imigrantes que desejam ficar ou ter um futuro no nosso país. Essa AIMA é uma imoralidade institucionalizada sobretudo entre um povo emigrante. Não discuto que precisemos de um controlo das fronteiras, de perceber o desígnio de quem entra, mas proponho hoje que pensemos juntos acerca do que nisto tudo é atentatório da identidade portuguesa, do que sempre nos distinguiu, do que nos fez sobreviver quase mil anos. Defender a Pátria portuguesa é precisamente o contrário do que gritam os que acreditam defendê-la – fazem-no por taticismo convertendo o medo das pessoas numa arma de poder.

O melhor de Portugal sempre foi a gentileza. A reflexão dos nossos maiores pensadores parte do sonho do outro, de chegar ao outro e mais longe, de partir à aventura, de juntar forças, de fazer compromissos e entendimentos, de nos misturarmos e, com isso, sermos maiores. Somos navegadores de mar e de pessoas, os estrangeiros são uma extensão da nossa História e devir. O universalismo ou a interculturalidade foram ideias nossas, uma invenção dos nossos melhores.

Camões exalta as conquistas, mas humaniza e sente compaixão pelos vencidos e até pelos adamastores – o encontro com outras culturas, o respeito pelo que é diferente e o seu próprio exemplo de imigrante em países distantes, onde sente a necessidade de ser acolhido. São tempos diferentes, mas a lógica foi sempre essa: repare no Padre António Vieira, na sua defesa dos judeus convertidos ou assassinados por não se terem convertido – no risco que assumiu perante a Inquisição, por se insurgir contra o erro colossal de expulsar cérebros, riqueza e o que nos definia. Defendia, não o esqueçamos, a livre circulação e o acolhimento de povos marginalizados.

Ou Fernando Pessoa que recuperou na sua Mensagem o Quinto Império como matriz identitária. Da nossa missão espiritual e cultural baseada na fraternidade com o mundo, com todas as filosofias e religiões do mundo. Falar de Pessoa é lembrar Agostinho da Silva, que nos indicou o quanto dependemos da mistura dos povos e não do confronto ou recusa dos povos. Receber imigrantes não era um problema, mas o nosso destino. Podia prosseguir dando tantos outros exemplos. O de Eduardo Lourenço, o de Adriano Moreira, o do padre Manuel Antunes, o de Tolentino, de Sophia ou de Natália Correia.

Lembro-me de me contarem, em criança, da fronteira de Vilar Formoso durante a 2.ª Guerra. Portugal tinha um estatuto de neutralidade, mas a população raiana, sabendo dos riscos que corria, saiu das suas casas com panelas de sopa e roupas para alimentar e vestir milhares de judeus desamparados e em fuga. Ou quando refugiados de todas as cores foram acolhidos nas Caldas da Rainha, na Ericeira e na Figueira da Foz. Há relatos que nos emocionam de famílias que partilhavam o pouco que tinham e que os integravam nas suas comunidades como se fossem família.

Isto somos nós. É isto que é a Pátria portuguesa. Foi isto que defendeu António Sérgio, um dos principais ideólogos de Francisco Sá Carneiro. Eis um dos maiores embustes, uma das maiores mentiras por estes tempos: que, para defendermos a Pátria, precisamos de livrar a terra dos que não são como nós. É o contrário: para não nos desviarmos de quem somos, do que soubemos construir, precisamos de acolher o melhor possível quem vem por bem.

Ver portugueses agressivos e violentos não é um embaraço, é uma vergonha. Não sou um homem ideologicamente à esquerda. Sou um patriota, um social-democrata com uma base cultural conservadora, no sentido clássico. Precisamos de salvar o país da ignomínia de nos estarmos a esquecer de quem somos por motivos conjunturais e da hipócrita gula de uns quantos.

Qual seria o tamanho da nosso perda se Portugal tivesse deportado o conde D. Henrique de Borgonha, os templários e a sua herança, ou Calouste Gulbenkian e Aga Khan mais as suas fundações, teríamos existido? E qual o resultado para as contas da Segurança Social e que gente trabalha na restauração e na hotelaria ? Porque não fazemos filhos, temos a sorte que mais nenhum país europeu tem, e esse reservatório chama-se Brasil.

Não imitemos 1497, porque não foi inteligente. Aí começamos a perder a independência.


Manuel José Guerreiro
Presidente da Caixa de Crédito Agrícola Mútuo de Torres Vedras

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