Vidas Exemplares
A história do Crédito Agrícola em Portugal é a história dos que nunca deixaram de acreditar no bem comum
António Louçã — um homem a quem uma doença determinou o encontro com a história
António Louçã é um filho do lugar de São Teotónio. Um homem que viu o destino obrigá-lo a regressar ao lugar onde nascera em 1949. O pai era agricultor e a mãe professora — uma família remediada que nunca faltou com o essencial para que ele pudesse alargar caminho e fazer-se à vida sem receio de não estar à altura.
Frequentou o Liceu Nacional de Setúbal num tempo em que a cidade parecia poder desenvolver-se como nunca antes, as empresas instalavam-se nas margens do Sado e até o Vitória de Setúbal parecia capaz de disputar o título de campeão aos três grandes.
António fez o liceu e começou no Instituto Superior Técnico para grande orgulho dos pais que viam engenheiro eletromecânico. Só que o António trocou a meio as engenharias por uma carreira na Força Aérea como navegador. Um tempo difícil para o país, uma guerra colonial que ameaçava prolongar-se. António esteve um ano nos Açores em acelerados exercícios de formação e realizou vários resgates de militares portugueses feridos na Guiné, o teatro de guerra mais inclemente.
Foi nestas circunstâncias que o destino fez a sua parte: a diabetes explodiu no seu corpo e António teve de regressar a São Teotónio, o lugar onde não pensava voltar. Caldos e galinhas, descanso e a necessidade de apontar caminhos para outras direções. Não estava nada fácil, não havia emprego na terra e, como precisava de trabalhar, aceitou fazê-lo nos armazéns do Paga-Pouco, em Tavira. Um conceito de supermercado moderno; antes das grandes superfícies de distribuição terem nascido, o Paga-Pouco fez escola.
A freguesia de São Teotónio está no litoral, mas não se distinguia das restantes aldeias e vilas alentejanas, marcadas pela desertificação. Havia o turismo, é certo. E a construção do perímetro de rega do Mira, mesmo no final da década de 1960, impulsionou fortemente o aparecimento de novas formas de agricultura que alteraram um pouco as dinâmicas da região.
Uma oportunidade de ouro para quem quisesse investir na agricultura. E também uma oportunidade de ouro para a Caixa de Crédito Agrícola de São Teotónio, que não tinha uma estrutura profissional. Era uma pequeníssima dependência com um único funcionário que guardava um cofre antigo numa divisão com o teto a ameaçar cair. Às quintas-feiras, dia em que na terra se caçava, colava um papel na porta com a palavra "fechado".
António Louçã estava mesmo destinado a "desaguar" ali. Talvez tenha sido essa a sua conclusão depois de vários anos a deambular por aqui ou por ali — quem diria que seria na Caixa de Crédito de São Teotónio que haveria de se cumprir?
No princípio da década de 1980 os dirigentes do banco convidaram-no para assumir responsabilidades. O seu pai já pertencera aos órgãos sociais e ele mostrara ser capaz de assumir tudo com coragem e criatividade, uma criatividade revelada também em ideias que aumentaram a faturação no supermercado.
António Manuel Nobre Louçã presidiu à direção da Caixa de São Teotónio durante 40 anos. Nessas quatro décadas foi capaz de oferecer uma dignidade — novas instalações — e de modificar o paradigma, a ambição e os resultados. Ninguém esperaria que, uns anos depois de ter entrado, conseguisse registar a Caixa de Crédito Agrícola de São Teotónio como a caixa sede do concelho de Odemira, uma conquista impensável.
O município de Odemira atribuiu a medalha municipal de mérito à Caixa de Crédito Agrícola Mútuo de São Teotónio, em 2011, ano em que celebrou o seu centenário. A medalha distinguia o profissionalismo e o desempenho reconhecido como um fator de grande importância no desenvolvimento económico do concelho. Celebrava também um século de resultados positivos, com relações de parceria de sucesso, com a confiança e a reciprocidade entre a caixa e os diversos organismos públicos e privados, em benefício da região.
A entrada de António Louçã para o Crédito de São Teotónio marcou o início de anos prósperos e de uma estabilidade de liderança que nunca acontecera até então.
Passou a pasta a Carlos Tomás, seu sucessor, em 2022. O aplauso dos sócios, e das chamadas forças vivas da terra, foi unânime. Aplaudido pelo modo como desenhou parcerias até então difíceis de concretizar — com a cooperativa local, com a câmara, com a direção regional de agricultura —, pelo modo como entusiasmou agricultores a um investimento, sendo a rede que eles precisavam que fosse, colocando à sua disposição apoio técnico para a candidatura a programas e incentivos ao desenvolvimento.
Criou a FACECO (Feira das Atividades Culturais e Económicas do Concelho de Odemira), cuja primeira edição estreou em 1990, reunindo no mesmo recinto mostras de agricultura, pecuária, artesanato, turismo e gastronomia da região.
Passou pela Caixa Central durante a administração de Jorge Nunes. Na altura, o Banco de Portugal suspendera a administração da Caixa Central. Vivia-se um período conturbado, com duas forças em oposição. Depois de diversas reuniões, numa realizada no Alentejo, propôs-se uma administração presidida por Jorge Nunes. A lista foi elaborada e saiu vencedora em eleições muito participadas. António Louçã integrou o projeto de Jorge Nunes e cumpriu o mandato com o objetivo de equilibrar as finanças, o que cumpriu.
Em seguida houve uma alteração no modelo de governação: um Conselho Geral de Supervisão foi adicionado e António foi convidado para estar nessa primeira linha. Tornou a aceitar e durante quinze anos integrou os Órgãos de Administração da Caixa Central. Um período rico e de autodeterminação do Crédito Agrícola. Provou-se nesses anos de ouro que era possível ganhar sem corromper os princípios fundadores.
Uma história inspiradora que poderia ter sido completamente diferente se não tivesse tido uma crise de diabetes que se manifestou na pior das alturas. Ou na melhor, quem sabe? Porque os 54 anos de convivência com a doença não o deitaram abaixo. Muito pelo contrário, determinaram-lhe o caminho. Deixou um legado de prosperidade e solidez na Caixa de São Teotónio e continua a dedicar-se a iniciativas relacionadas com as carências da sua região. A sua luta, a sua energia, será até ao último dia, não menos do que isso.
Este artigo foi publicado ontem, no jornal Diário de Notícias, inicia o arranque do projeto Vidas Exemplares, em parceria com a Federação Agrimútuo. Uma iniciativa que conta a história do Crédito Agrícola através das pessoas que nunca deixaram de acreditar no bem comum.
Texto: Raquel Gaspar Silva e Luís Osório
Fotografia: Rafael Antunes
Fonte: Diário de Notícias