Carlos Vargas assume a sua responsabilidade sem ironia. São Bartolomeu de Messines é a terra onde nasceu João de Deus, poeta, pedagogo e, mais importante do que isso, primeiro contribuinte ativo do Crédito Agrícola. Um orgulho que pode e deve ser estendido a outros homens bons, como o seu tio Francisco Vargas, que tem o seu busto na agência, um lembrete do que é realmente essencial, para lembrar que os seus desígnios podem e devem continuar a ser honrados e cumpridos.
Em São Bartolomeu de Messines a influência da Caixa Agrícola é notória. Uma história confunde-se com a outra. Uma história de gente que se comprometeu com o destino e o progresso da terra. Gente que se dedicou com "empenho, dedicação e transparência". Não há nenhum clube, associação, sociedade recreativa ou estrutura em Messines que não tenha sido alavancada pela Caixa Agrícola. O Crédito Agrícola reverte e reverte o benefício para a comunidade, como costuma dizer Carlos Vargas. Nos anos da crise, a instituição substituiu-se aos poderes públicos na defesa e na promoção da cultura, no restauro de arte sacra, no apoio a iniciativas desportivas, no convívio, ou até na construção do Auditório Municipal.
A Caixa de Messines encontra-se no grupo das mais bem qualificadas e sólidas a nível nacional. Num tempo necessariamente de balanço, Carlos Vargas orgulha-se muito do compromisso assumido com o desenvolvimento da economia e o bem-estar social da terra de seu pai. Um homem de referência na sua vida, tal como a mãe. Viveram para ele, filho único, talvez tivesse sido ainda mais mimado como todos os únicos se o pai não lhe tivesse morrido cedo, demasiado cedo. Acabara de entrar para a universidade onde estudou Economia e Gestão, em Lisboa. Ficou sem pai, mas o tio Francisco, o homem imortalizado no busto contra o esquecimento, amparou-o como se fosse seu.
Francisco tinha duas filhas, aquele rapaz tomou lugar do filho que nunca teve. A família paterna, "atípica-mente meridional", reunia-se com frequência, em torno de uma grande mesa, posta e farta. Comer e rir alto eram os ingredientes das suas mais deliciosas memórias familiares, aromatizadas a laranja e a milhos com carne de porco. A constelação familiar de Carlos Vargas tem pontos de luz que se dissipam pelos tempos e pela história de Messines, terra de gentes para quem parece não haver impossíveis. Muitos caminhos se cruzam nesta travessia da memória.
O mestre Mogo, conhecido por mestre Moguito, tinha uma oficina de sapateiro no rés-do-chão do único prédio de dois pisos da terra. Para além de sapatos, a oficina era o epicentro das congeniações republicanas. Mestre Mogo era um homem de 1910. O edifício da oficina pertencia à família de Maria Bastos, mulher do célebre Remexido, herói do exército de Dom Miguel, que participou na guerra civil entre monárquicos e liberais, em 1826.
Mestre Mogo, casado com Júlia, teve sete filhos: o Jorge, o Mário, o Herculano, o Francisco, a Aristotélia, a Maria e a Adelaide. Quando Júlia morreu, Aristotélia foi a mãe dos seus três irmãos mais novos. O pai partiu pouco tempo depois e os rapazes e as raparigas cresceram.
Fiquemos em Francisco, o tio de Carlos e um dos fundadores da Caixa Agrícola. Completou a primária e foi trabalhar para a farmácia. Na direção técnica, havia uma jovem doutora, natural de Vila de Rei, a bonita Maria do Rosário. Apaixonaram-se e casaram em 1959. Ele, um homem irreverente, multifacetado e um incansável defensor do povo de Messines. É claramente influenciador do caminho escolhido pelo sobrinho que, depois do curso, foi trabalhar primeiro para o Banif, depois para a Confesca e Burnay e depois para Angola e Macau onde se especializou na consultoria económica.
Quando regressa a Portugal encontra a Caixa de Messines um pouco apagada, uma sombra daquilo que o tio projetara. Dois anos depois do regresso, em 2008, Carlos Vargas é convidado a encabeçar uma lista que se opunha à possibilidade de fusão da Caixa de Messines com a de Silves. Ganhou e não estavam na sua cabeça gastar os últimos anos da sua vida profissional na Caixa Agrícola, mas a vida é muitas vezes isto.
Pela história de Messines, terra de gentes para quem parece não haver impossíveis. Muitos caminhos se cruzam nesta travessia da memória.
A sua Caixa de São Bartolomeu de Messines fortaleceu-se e credibilizou-se com os efeitos da Troika e de credores no nosso país. A fragilidade do tecido empresarial português, alicerçado em micro e pequenas empresas, levou à óbvia e necessária ajuda das instituições financeiras. A Caixa de Messines foi a tábua de salvação para dezenas de donos de PME com atividade ligada direta ou indiretamente à terra.
Um marco importante que atesta a importância da proximidade da banca cooperativa com as populações e as empresas e empresários locais.
Carlos Vargas entra para a Caixa para combater a possibilidade de uma fusão que colocaria-se em 2010. Um combate que vence novamente. No entanto, não venceu para sempre. As circunstâncias tornaram a independência de Messines uma utopia que levou a que a fusão com Silves tivesse mesmo avançado. Não foi uma decisão fácil uma vez que a recusara um par de vezes. Os sócios são chamados à Assembleia Geral para repensar o futuro da instituição que, em boa verdade, era também o de Messines. Uma terra que, como o restante Algarve, com agravante de não estar no litoral, sofria com a extinção de industriais e comerciantes que defendiam os interesses locais.
Nascida assim a Caixa de Crédito Agrícola das Terras do Arade, o rio algarvio de maior caudal, que corre entre a serra xistenta e o barrocal calcário.
Carlos Vargas continua a sua missão. O homem em quem empresas e pessoas confiam. Pai de uma artista plástica que lhe deu a possibilidade de ser avô três vezes. A mais velha, de espírito "matemático" já confessou ao avô que um dia o substituirá na Caixa de Messines. Ele não sabe, mas Carlos sentiu um enorme orgulho em ouvi-lo da sua boca.