Não fazemos ideia se João tem alguma relação com Deus ou se rezou no lugar dos perdidos ou por perder, mas sabemos que o seu talento para o pensamento levou os pais a tirarem da ideia que o rapaz seria lavrador. Foi estudar para Viseu e licenciou-se em Economia no Porto. Terminou o curso no ano da revolução, só que era um precoce e, antes do diploma, já entrara no Banco de Portugal onde é um dos únicos, se não mesmo o único, a ter passado por todas as etapas possíveis, do mais baixo ao mais alto. técnico assessor, diretor de departamento, consultor, administrador, vice-governador e, por fim, presidente do Conselho de Auditoria.
O texto de hoje é diferente, impossível ir a todas as dimensões do nosso protagonista, e o nosso foco está no cooperativismo, nos grandes cooperativistas, em homens com vidas exemplares que alteraram paradigmas, sacrificaram-se por uma ideia comum ou resistem a este tempo de egoísmo e ausência de valores. João Costa Pinto simboliza no movimento da Economia Social, com foco na Caixa Central do Crédito Agrícola, a dificuldade de resistir a movimentos que se tornaram dominantes e que podem pôr em causa, no limite, a existência de uma banca cooperativa.
Entre 2002 e 2013, presidiu à Caixa Central. Existia no setor a ideia de que é o homem certo para efetivar uma reestruturação profunda. Costa Pinto vê o desafio como uma missão. Liderara o Banco Nacional Ultramarino e sua a incorporação na Caixa Geral de Depósitos. Essa experiência é vista pelo setor político, financeiro e económico como um óbvio sinal de que é a pessoa certa para efetivar fusões de caixas agrícolas e criar as condições para uma centralização de procedimentos que resolvesse a dispersão de poder e a dificuldade de adaptação a uma lógica mais profissional.
É o que acontece e a adaptação é feita com eficácia. As caixas modernizam-se e a Caixa Central assume o controlo e dá resposta às necessidades cada vez mais apertadas de regulação. Em 2011, João Costa Pinto preside às comemorações do centenário das Caixas Agrícolas e o seu esforço e resiliência, provada na crise da troika, é distinguido e valorizado por todos os poderes. No entanto, é nessa altura que começa a ter dúvidas no processo, não existiria o perigo de a sua cura poder matar o que o doente tinha de único, a sua capacidade de respeitar cada comunidade, a proximidade, no fundo o fator distintivo à banca comercial? Não estaria ele a, inadvertidamente, permitir que outra liderança tivesse a faca e o queijo na mão para desvirtuar a riqueza única das cooperativas?
João Costa Pinto promove e confia em Licínio Pina, seu administrador com quem se incompatibiliza quando percebe que o futuro estava a ser desenhado sem o seu conhecimento ou ação. Sai da Caixa Central em 2013, substituído por um homem diferente de si que estabelece, a partir desta nova ordem, uma estratégia diferente e fortemente alavancada num risco que, historicamente, as Caixas Agrícolas nunca haviam assumido. Licínio faz uma política de rutura com o passado e João afasta-se por completo, mas sem nunca perder o sentido crítico que considera sua responsabilidade enquanto figura de referência do sistema: em 2022, critica várias emissões de dívida - obrigações convertíveis em capital - que a Caixa Central realizou para cumprir exigências regulatórias. Alerta também para o peso excessivo da dívida pública no balanço da instituição.
João Costa Pinto pertence ao Conselho Estratégico da Caixa de Crédito Agrícola de Torres Vedras, tornou-se próximo de algumas figuras independentes do sistema, como Manuel Guerreiro considerado um dos ideólogos do cooperativismo e o principal opositor do caminho seguido pela Caixa Central. Uma proximidade que é também um sinal simbólico do seu posicionamento.
É um dos melhores portugueses, dissemos no início. O que é verdade. Por ser transversal no sistema financeiro, mas também por ser influente na diplomacia e na cultura. Ocupa o lugar de vice-presidente da Fundação Oriente e é um dos portugueses que mais sabe sobre a China. Escreveu sobre isso, sobre a cultura oriental, sobre o modo de ver o mundo dos chineses, sobre Macau que é uma segunda pátria - em 1982, quando os chineses começam a sair para o mundo, foi nomeado por Ramalho Eanes para o Governo de Macau, liderando a pasta da coordenação económica. Teve também um papel decisivo na implementação da moeda única, trabalhou no Banco Central Europeu e continua tão desperto como na sua adolescência de estudante de liceu em Viseu. Mantém a curiosidade, faz a apologia da pergunta e da liberdade, lê e escreve, pensa e partilha, é um homem do futuro sem deixar de ser um passageiro da renascença.João Costa Pinto é um dos melhores portugueses. Porventura a figura que no sistema financeiro melhor conhece todos os passos, todas as áreas, todos os modelos. Não há ninguém que tenha a sua experiência e conhecimento - na regulação, na banca comercial e cooperativa, na relação com o Estado, na cultura, na diplomacia, na academia. É único, mas não um vitorioso. Ganhou e perdeu. Ganhou muito e perdeu alguma coisa, já lá vamos.
Não somos adeptos de perfis a partir de cronologias redondas, mas desta vez começamos no princípio e acabamos no presente. João nasceu num tempo de esperança, mas num lugar ermo, afastado, para o bem e para o mal, de um mundo que acabara de celebrar o final da Segunda Grande Guerra. Nasceu quase no Natal, num dia gelado de dezembro, numa vila da Guarda, a poucos quilómetros da Serra da Estrela. A sua Vila Nova de Tazém é o lugar da cristandade com mais "Alminhas", invenção do Concílio de Trento, no século XVI, que criou o conceito de pequenos templos dedicados ao purgatório dos espíritos. Quis Deus, ou alguém por ele, que João visse a luz num verdadeiro Purgatório, terra onde foram construídas 24 Alminhas para que ninguém se ousasse perder.
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