Não há figura tão marcante como ele na história do cooperativismo português. Nasceu pobre, começou a trabalhar aos 12 anos, mas na sua cabeça nunca deixaram de galopar os sonhos de que se alimentam os líderes. A partir de um concelho do Alentejo transformou a Caixa Agrícola de Santiago do Cacém na maior do país e foi um dos mais fortes impulsionadores da criação da FENACAM e depois da Caixa Central. Isto sem esquecer a sua brutal influência no concelho que o viu nascer. Entrou na Misericórdia de Santiago em 1980, tornou-se o seu histórico provedor, fundou um lar, uma creche e um centro de cuidados continuados.
Permitam-nos que comecemos pelo início. Pela miséria mais profunda que se possa imaginar. Não é preciso sequer muita imaginação, basta-nos recuar ao Alentejo num quente dia de maio de 1937. A mãe Felisbela era solteira e o pai, mais velho quase dez anos, um trabalhador que fazia o que havia, trabalhava à jorna e transportava mercadorias, um almocreve. O bebé foi batizado de Jorge e nasceu na casa de uma avó, em Melides. A mãe tinha 23 anos e uns dias depois do parto já voltara aos campos de arroz ou à ceifa do trigo, de sol a sol.
O pequeno Jorge cresce com os quatro irmãos. É diferente de todos, o único que gosta e faz por ir à escola. Descalço sempre, mas cumpridor e com objetivos loucos: o de ser independente e ganhar ao destino. Descia o monte na Sobreira Torta, chegava à escola e fazia por aprender. Aos 12 anos desentendeu-se com o pai e bateu com a porta. Trabalhou na reparação de estradas e, dois anos depois, melhorou a vida pois um comerciante convidou-o para ser funcionário num estabelecimento que vendia quase tudo. Atendia de dia e dormia nos fundos da loja. Nos tempos livres ganhava provas de ciclismo com bicicletas emprestadas. Foi para o Benfica, mas teve uma queda e ficou em coma durante uns dias. Poderia ter sido tudo no ciclismo, mas era uma modalidade que não matava a fome, desistiu por não desejar ser travado na vida.
Esta é a história improvável de um homem que conquistou o futuro revolucionando a caixa agrícola de uma terra pobre. Começa como escriturário em 1966, mas as caixas agrícolas, até 1974, existem sem existir. São totalmente dependentes da Caixa Geral de Depósitos e não têm condições para crescer. Nos oito anos entre o momento em que entra e o 25 de Abril, Jorge Nunes aprende sobre cooperativismo. Prepara-se e vai conhecendo pessoas que, em alguns casos, depois de 1974, se tornam seus aliados… ou inimigos. Antes da revolução, o ambiente era de pessimismo em Santiago. Não apenas pela falta de autonomia, mas também pelo nascimento do megaprojeto industrial de Sines que ameaçava rebentar com a agricultura de uma parte substancial do Alentejo.
Jorge é chamado de fascista em abril de 1974. Tinha um BMW, um insuportável sinal burguês. Mas é também acusado de comunista pela direita, por defender os mais pobres e a igualdade de oportunidades. Em 1975, assume a presidência da Caixa de Santiago substituindo Armando Prates. Durante trinta anos não parará de crescer. Abre balcões noutros concelhos, é a primeira caixa a ousar sair da sua cidade e a implantar-se noutra. Entra em guerra com o Banco de Portugal, mas consegue convencer Ernâni Lopes, ministro das Finanças, da importância do movimento de expansão – começa por abrir delegações em Sines e Grândola. E é também o primeiro a fazer fusões, abre a porta a Ourique e seguem-se outros movimentos.
Visionário, influente, dinâmico, combativo e focado. No seu território vai caminhando, mas no país ajuda a criar as condições para a transformação e maior poder das caixas agrícolas. Em 1977, mobiliza presidentes de norte a sul para, juntos, se libertarem da tutela da Caixa Geral de Depósitos que impedia o crescimento do cooperativismo. É a partir desse movimento que é alterado o regime jurídico e nasce a FENACAM, braço de crédito das Caixas Agrícolas e que é precursor da Caixa Central.
Jorge Nunes deveria ter sido o primeiro presidente da Caixa Central, mas no último momento acontece um golpe de teatro, e uma pequena traição, e é escolhido João Ramos, da Caixa da Batalha. Só mais tarde, num momento de dificuldade, é chamado, no princípio deste século, para salvar o projeto e convencer o Banco de Portugal de que a Caixa Central poderia ser viável. Torna-se presidente, chama João Costa Pinto e sai de consciência tranquila de que fez em cada momento a sua obrigação – até no modo como criticou o caminho da Caixa Central e a sua progressiva transformação num banco comercial com cada vez menos traços e preocupações cooperativas.
É um homem extraordinário. Teve dois filhos, a Paula e o Jorge. Casou com a única mulher da sua vida, Maria Augusta. E teve uma vida que ninguém imaginaria quando em criança o viam descer o monte, com calor ou chuva, descalço e alimentado a açorda e coentros, ou quando bateu com a porta aos 12 anos para carregar pedra dura nas estradas. Quem poderia pensar que aquele rapaz seria um fazedor de futuro?
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