Vidas Exemplares - José António dos Santos
O HOMEM QUE FEZ TUDO O QUE DESEJOU

Não se confunda. O homem da fotografia não é o mesmo da semana passada. É um outro, muito diferente embora igualmente extraordinário. Este chama-se José António, o seu irmão gémeo é António José. Um e o outro, um com o outro, construíram o maior império agroindustrial português, o Grupo Valouro. E os dois foram desafiados, no mesmo ano de 1989, a salvar caixas agrícolas diferentes, o António José a de Torres Vedras, e o José António a da Lourinhã.

Perguntamos a José António se aceitaram o desafio como parte de um jogo, uma disputa entre os dois, uma brincadeira de irmãos. Ofendeu-se com a pergunta, legitimamente: como era possível pensarmos sequer na possibilidade, tinham-no feito pelo apelo das pessoas, pelo drama de as instituições poderem falir, pelo que isso significaria para tantas famílias, pequenos empresários e a própria terra. Nunca lhes passou pela cabeça fazerem comparações até por serem caixas com dimensões diferentes, a de Torres Vedras quatro vezes maior. Uma pergunta imperdoável se tivéssemos sabido de toda a história de irmãos, do primeiro negócio que inventaram aos 14 anos, a venda de coelhas. Sim, leu bem, coelhas. Tinham conseguido dez coelhas bebés e criaram-nas com ervas e boa aveia da Marteleira, a terra onde nasceram e onde construíram e ofereceram, décadas depois, um lar para que nenhuma pessoa passasse a velhice sem estar acompanhada. E um pavilhão para que as crianças pudessem praticar desporto. Ah, quanto às coelhas, multiplicaram-se e eles ganharam um bom pé de meia para se fazerem à vida.

Mas contemos a história de cooperativista de José António dos Santos. Em 1989, um seu sócio num pequeno negócio de porcos, era associado da Caixa da Lourinhã e desafiou-o a presidir à assembleia-geral. Não daria qualquer trabalho, eram apenas duas reuniões por ano e a sua voz poderia ser importante para definir algumas linhas estratégicas numa caixa que parecia à deriva. José António aceitou nessa premissa, um par de dias por ano. Entretanto, o seu irmão é desafiado para presidente em Torres Vedras e na Lourinhã as contas estavam piores do que alguém poderia imaginar. A Caixa estava em falência técnica e ninguém se entendia. Seis meses após integrar a assembleia-geral já era presidente do conselho de administração. Colocou como condição o poder contratar uma pessoa da sua confiança, não podia ser de outra maneira, afinal geria dezenas de empresas e isso era e continuaria a ser o centro da sua vida. Contratou José Damião que trabalhava na União de Bancos e começou a aventura.

José António nunca entrara nas instalações, não sabia sequer onde ficava a sede. A Caixa da Lourinhã tinha três milhões de contos de ativo, mas mais de passivo. Além do mais uma parte dos ativos não eram cobráveis, uma percentagem importante do crédito estava concentrada numa empresa de um familiar de um antigo administrador, uma enormíssima bagunça. Para se ter uma ideia do ambiente, contamos-lhe um episódio. Logo nas primeiras semanas da sua liderança, estava casualmente no balcão da sede e viu um cliente pedir para levantar todo o dinheiro que tinha depositado, cerca de seis mil contos, não tão pouco quanto isso. O funcionário foi ao cofre e trouxe as notas, José António aproximou-se e o homem disse-lhe das razões. Bastou um minuto de conversa para que o cliente lhe fizesse uma pergunta que nunca mais esqueceu: "O Sr. José António vai mesmo ficar aqui? Assegura-me isso?". Que sim, assegurava-lhe que o compromisso estava fechado, ficaria. O senhor pediu então para devolver o dinheiro ao cofre. É uma história mais marcante do que parece. A banca é feita de confiança, quando esta se perde, perde-se tudo. E a confiança está ligada a pessoas concretas.

A recuperação foi lenta, mas consistente. José António dos Santos conseguiu injetar três milhões de contos através do Fundo de Garantia do Crédito Agrícola, do Banco de Portugal e, a partir daí, foi limpando imparidades e liquidou o crédito em menos de metade do tempo do que estava previsto no acordo.

Mantém-se na presidência trinta e dois anos, quase uma vida. Sai no dia 27 de junho de 2021 por causa das notícias que o associavam a um esquema ligado à compra de ações do Benfica. Em poucas semanas tudo se esclarece, os procuradores achavam que era um especulador a soldo de Luís Filipe Vieira, não associaram à sua narrativa o pequeníssimo pormenor de José António ser multimilionário, de as ações do Benfica não terem passado de um vulgar negócio. Os inspetores descobriram, espantados, que em mais de trinta anos nunca aquele homem recebera um cêntimo da Caixa Agrícola, que nunca sequer deixara a Caixa pagar-lhe um almoço. Muitas desculpas, mas o mal estava feito. E não lhe apeteceu continuar, já chegava. Trinta e dois anos em que, com exceção de 1990, a Caixa da Lourinhã deu sempre lucro. Dizia aos seus administradores que a responsabilidade de tratar do dinheiro dos outros, do dinheiro que não lhes pertencia, era enorme. Que era preciso ter cuidado. Orgulha-se destes anos.

A Lourinhã lá continua, agora sem ele, mas basta passear um pouco pelas ruas e perguntar pela falta que faz, é unânime que sim, que os tempos são um pouco diferentes por as regras terem mudado. A Lourinhã pertence, ao contrário de Torres Vedras, à Caixa Central. O movimento de independência feito pelo seu irmão António José, não foi acompanhado por estar numa situação financeira de enorme fragilidade, não podia dar-se ao luxo de arriscar prosseguir sem uma rede maior que amparasse a Lourinhã caso fosse necessário.

José António não se sente confortável com o caminho de um cooperativismo cada vez menos cooperativista. A Caixa Central tornou-se impositiva e quebrou a independência das caixas, no seu tempo não era assim, existia uma autonomia que, apesar de alguns sinais que já se adivinhavam, era respeitada. Para ele, a matriz social deveria ser um dogma. Assim como todas as características que permitem que estas instituições sejam distintas da banca comercial, de outra maneira não vale a pena. As caixas agrícolas fazem falta para que exista elevador social, para que os mais pobres possam empreender pois, de outra forma, ninguém lhes empresta dinheiro.

Perguntamos-lhe à saída sobre o que lhe faltou fazer. José António dos Santos sorri e desarma-nos com cinco palavras: "Não me falta fazer nada."

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