Vidas Exemplares - Normando Xarepe
O HOMEM QUE NUNCA DESISTIU DO ALENTEJO

Normando Xarepe, filho de José João e Guiomar da Conceição, nasceu em Veiros no primeiro mês de 1956. Os pais tinham uma mercearia com taberna, naquele lugar de um Alentejo profundo estavam no centro de todas as conversas. Por ali, por aquela mercearia que servia copos de tinto, queijos e enchidos, passavam os homens e as mulheres que no horizonte ambicionavam apenas sobreviver.

José e Guiomar eram também pequenos agricultores. Foi nesse ambiente que nasceram Normando e o seu irmão Jorge, um ano mais velho. Dois miúdos que cresceram sem as dificuldades dos seus amigos da escola primária. A terra e o comércio, prova da alma empreendedora do pai, garantiram-lhes a subsistência e um sentido para o futuro. No seu Alentejo, a terra era o investimento que maior segurança trazia, e nascer numa vila ou aldeia era estar destinado a unir-se com a terra. Na década de 1960, o Rossio Marquês de Pombal de Estremoz era ocupado na totalidade pelo mercado onde se vendia de tudo, o local privilegiado de trocas para a população que se dedicava maioritariamente à agricultura. Acorria gente de todo o lado, o que aliás ainda persiste com fama internacional e proveito.

Jorge era rebelde, mas Normando dava-lhe o desconto, na sua tranquilidade foi sempre o porto de abrigo do mais novo. Veiros, pequena vila do concelho de Estremoz, terra da abetarda e do cisão, foi o palco das brincadeiras dos irmãos. Andavam à vontade por todo o lado e havia muito gaiato, a escola tinha quatro turmas o que contrasta com o deserto em que se transformou uma parte importante do Alentejo.

E naquelas turmas cheias contava-se a história da terra, não havia quem não tivesse orgulho da grande aventura dos que um dia tinham morado ali, no lugar que pertenceu à Mesa Mestral da Ordem de Cristo. Em 1377, Inês Pires Esteves deu ali à luz um filho de João, à data mestre da Ordem de Avis e futuramente D. João I, o primeiro monarca da dinastia de Avis, o célebre Mestre de Avis.

Normando saiu de Veiros apenas para fazer a tropa, em Vendas Novas. Tinha 21 anos e já casara com Ermelinda, rapariga da terra. Conhecem-se desde pequenos e andaram na escola juntos. Apaixonaram-se na adolescência e combinaram o casamento. Normando acompanhado dos seus pais pediu a mão da rapariga, um ato feito com grande seriedade, porque o contrato da palavra tinha valor inestimável. A palavra era valiosa. A palavra é valiosa, uma marca de água na vida de Normando Xarepe.

A marca que o levou a jogar um papel importante na Caixa Agrícola de Estremoz. Era popular e sério, depois da tropa passara a administrar os negócios do pai e correra tudo bem. A juventude e o talento eram uma mistura importante para que se abrissem oportunidades e, também por isso, aceitou presidir ao conselho fiscal onde cumpriu um mandato sem esperar voltar. Tinha demasiadas coisas com que se preocupar, uma atividade profissional intensa na área dos materiais de construção e a agricultura. Entre as duas atividades principais, o tempo era escasso.

Pensou nunca mais regressar, mas a realidade não quis que fosse assim. Em 2004 a situação da Caixa Agrícola alterara-se com a fusão com as caixas de Monforte e Arronches e era necessário apostar em alguém com outras capacidades. Normando estava entre os convidados para a nova estrutura. Como vendera o negócio dos materiais de construção, aceitou o desafio.

Entre 2004 e 2019 a Caixa de Crédito Agrícola assumiu a sua vocação de banca de proximidade. Uma banca baseada na palavra e na confiança. Os tempos tinham-se alterado, as caixas de crédito passaram a ter de cumprir regras muito específicas na atribuição de crédito, mas Normando nunca abdicou da sua identidade, a palavra continuava a ser o princípio de tudo. E as pessoas acreditaram e sabiam que na Caixa de Estremoz as garantias eram reais. O mesmo acontecia em relação à missão cooperativa, por vocação ajudava-se continuamente, criando-se a segurança que os clientes precisavam até porque a agricultura não é absolutamente científica, tem de saber ouvir-se, criar e atar laços com quem vive da terra e se uniu a ela. Saber analisar as pessoas foi um requisito essencial, pessoas nos seus contextos, para além dos negócios.


Normando Xarepe andava na rua, cruzava-se com os empresários, os comerciantes, os investidores, os agricultores, os pequenos e os médios, ia ao seu encontro, via, sentia na pele, estava no lugar do cliente, visitava as herdades, os negócios, conhecia as casas, os comércios, mas conhecia desde sempre, e era honesto, uma confiança que fazia por ser recíproca com os clientes e associados. Assim se aprendia a não olhar apenas os números, mas a ver as caras, os contextos, as realidades.

A vida dos agricultores no interior tem muitos desafios e alguns dogmas que não se alteraram, a ausência de proximidade compromete os negócios, é inequívoco que as relações estreitas com os clientes e os funcionários alicerçam uma rede de força e uma entreajuda que conduz a melhores resultados. É isso que faz uma cooperativa, uma cooperativa ajuda a resolver problemas. Quando se consegue ajudar alguém a resolver problemas financeiros, o retorno humano é muito grande. Não é quantificável, mas preenche. Normando conta que pessoas que eram convidadas para as direções da Caixa recebiam uma senha de presença residual mensal e eram escolhidas entre os melhores da terra, estavam ligados a outras instituições, haviam passado por outras empresas, outros lugares, desempenhado outras funções, às vezes mantinham outras atividades em paralelo, hoje em dia não podem ter outra atividade, a exclusividade compromete a escolha das pessoas, é a técnica em detrimento do lado humano.

Normando não está otimista. Tem algumas reticências em relação ao dia de amanhã. Não tem respostas certas para as perguntas que faz na sua cabeça.

Haverá uma nova geração que conhece a terra e as necessidades da terra? Haverá jovens para assegurar o futuro? O mundo avança, muda, expande-se, mas mesmo assim não consegue encontrar uma resposta que seja linear e que o descanse.

É hoje membro da mesa da Assembleia da Misericórdia de Veiros, o maior empregador da vila. Continua a fazer serviço de voluntariado, é uma espécie de prolongamento da sua atividade de provedor. Foi presidente da Junta, uma candidatura independente em 2005, sob o lema "Pela Nossa Terra", que concorreu à autarquia e à Assembleia Municipal de Estremoz. Sempre pela terra, foi vereador da Câmara Municipal de Estremoz, presidente da Junta de Freguesia de Veiros e integrou a Assembleia Municipal de Estremoz.

O irmão Jorge mora na casa ao lado da sua, num terreno que outrora pertenceu aos seus pais. Jorge está doente e tem ido a Lisboa. Quando se vai a Lisboa, tem-se a ideia de que a coisa é mais séria, a família está inquieta. Antigamente ir a Lisboa era como ir à China. De alguma maneira, Normando continua a pensá-lo no seu inconsciente. Ir à China e voltar a Veiros, voltar a casa e à terra que é de todos.

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