Vidas Exemplares - Vítor Costa
O HOMEM QUE SE CUMPRIU

Vítor Costa é especial. Um homem corajoso, frontal e que, na sua vida, cortou sempre a direito assumindo as responsabilidades com mão de ferro. Poderia ter sido um dos fundadores da Caixa Central, mas saiu do barco mesmo antes de entrar, sem dúvida uma prova de independência, liberdade de espírito e confiança em si próprio.

Contamos-lhe a história, mas um bocadinho de trás. A Caixa do Bombarral está ligada umbilicalmente à sua família. O avô foi presidente, o seu pai foi presidente e o seu filho foi também presidente. Quatro gerações que correspondem à quase totalidade da história da instituição. Hoje, desde há pouco mais de um ano, a Caixa do Bombarral tem na liderança uma pessoa sem o apelido "Costa", a primeira vez que acontece nos últimos mais de 70 anos, o que é obra.

Curiosamente, o nosso protagonista, um dos mais notáveis cooperativistas portugueses, não desejou ocupar o lugar do seu pai, o que acabou por acontecer logo após o 25 de Abril. Tinha outras ideias na cabeça: montar o seu negócio, caminhar numa estrada própria, tudo isso. Além do mais chateara-se com o pai por este ter matriculado o irmão mais novo no Colégio Interno de Tomar. Entristeceu-o e, além desse íntimo incómodo, não desejava a vida do progenitor, casa e trabalho, rotina e previsibilidade.

Só que a vida raramente é uma linha reta. Podemos fazer planos, mas ela tem ideias próprias e troca-nos as voltas. Bombarral era um lugar pobre, difícil e inóspito. Os agricultores subsistiam como podiam, a Caixa Agrícola oferecia-lhes a possibilidade de sobreviverem, de terem futuro. Vítor Costa, que recebeu a revolução de abril com alegria, entendeu que estar ali era a melhor forma de ser útil aos seus, de fazer a sua parte. E foi ficando.

Já como presidente, em 1977, no dia 10 de julho, viu o seu pai, António Costa, ser feito comendador pelo Presidente Eanes, uma das primeiras condecorações da História democrática. Uma festa no Bombarral com abraços, orgulho e fanfarras. Uns anos mais tarde, já depois da morte do pai comendador, Vítor viu o presidente da Câmara, Vasco Furtado, inaugurar uma rua com o nome "Comendador António Costa".

Não seria necessário escrever o que é expectável. Sim, isso. É na rua que tem o nome do seu pai que mora Vítor Costa, não é para todos.

Nem sempre foi uma relação fácil com o pai, mas Vítor Costa jamais formou a sua opinião pela dos outros, fez o que em cada instante acreditou ser o melhor para a terra. Desde o primeiro dia em que entrou no banco, não se lembra se antes ou depois da tropa feita em Goa. Recorda o estágio, logo após tornar da Índia - naqueles meses aprendeu sobre empréstimos e retalho, conheceu clientes e associados, acompanhou o pai em reuniões.


Mas vamos à história do nascimento da Caixa Central. A Fenacam é fundada em 1978, quatro anos depois é publicado o Regime Jurídico do Crédito Agrícola e, em 1984, Bombarral está nas conversas para a fundação da Caixa Central. O advogado João Araújo, tornado célebre por ter sido o primeiro defensor de José Sócrates, ganha preponderância nessas reuniões iniciais e influencia fortemente as principais figuras das Caixas Agrícolas mais ativas, como Santiago do Cacém e Leiria. Aliás, o alentejano Jorge Nunes e o leiriense Mário Matias, dividem o poder e Vítor Costa não demora a sair. Na verdade, não chega a entrar. Bombarral e outras quatro caixas não aceitam pertencer à Caixa Central e só em 1999 Torres Vedras e Leiria sinalizam também as suas saídas e, por fim, Mafra, a última das caixas agrícolas a exercer o direito a ser livre.

Para Vítor Costa era uma evidência que a Caixa Central iria matar a independência de uma instituição centenária que representava muitíssimo para a terra e a sua própria família. Nunca lhe pareceu também um bom negócio, o Bombarral perderia remuneração e a Caixa Central alimentar-se-ia dos excedentes. Vítor tentou negociar para metade e, por fim, para 60/40, a uma derradeira oferta prontamente recusada pela Caixa Central.

Poderia ter sido de outra maneira, mas foi desta. Havia muita coisa para contar, muitos episódios e estórias. Vítor Costa abandonou a presidência executiva do Bombarral, em 2013. Sucedeu-lhe o seu filho Filipe Costa. Quarenta anos na liderança da Caixa e um destino que, afinal, estava escrito. Suceder ao pai como este sucedera ao seu. E ver o filho suceder-lhe a si. Milhares de negócios que começaram ali, muitas vitórias, algumas desilusões e memórias inesquecíveis. Entre elas, a da inauguração da nova sede, um antigo armazém de produtos alimentares. Vítor Costa comprou a propriedade que um dia pertencera a um grande amigo precocemente desaparecido. Jorge Sampaio inaugurou a nova sede num dia de 2001 em que o Bombarral se engalanou para receber o Presidente e celebrar a sua Caixa Agrícola. Um dia e uma noite muito felizes. Sampaio ficou para o jantar comemorativo na Quinta das Cerejeiras e Vítor regressou a casa, já depois da meia-noite, com a sensação de que se cumprira.

Hoje, afastado da vida no banco, é menos otimista do que nos seus tempos mais pessimistas. A vida mudou, os paradigmas alteraram-se, o lucro impera e os princípios cooperativistas deixaram de ser centrais na vida da maioria das Caixas Agrícolas. A perda de identidade entristece-o um pouco e não o tranquiliza tanto como ele próprio desejaria. Só que a vida tem sempre os seus próprios planos, é nisso que confia, é isso que espera, otimista.

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